
Ele não gostou. Levou uns segundos pra engolir a provocação. Depois entendeu.
Porque montar um “setor de IA” mata exatamente o que precisava ser feito antes de qualquer ferramenta entrar na sala. Que é olhar pra dentro. Olhar pro seu processo.
E aqui vai uma verdade que nenhuma consultoria de seis dígitos vai te dizer: ninguém entende o seu processo melhor do que a pessoa que executa ele todo dia. Não é o consultor. Não é o curso de fim de semana. É quem está lá, na ponta, fazendo.
Mas essa pessoa entende o próprio pedaço. Não necessariamente entende como aquele pedaço se conecta com o resto da empresa. E é exatamente aí que a maioria morre. Cada um dono do seu naco de processo, ninguém com visão de como as pontas se encontram.
o que a IA faz de verdade, e o que ela não faz
Só depois disso a ferramenta entra. E aí ela faz trabalho de verdade. Analisa contrato, calcula risco, organiza dado, cruza informação que levaria seu time uma tarde inteira pra cruzar na mão. Decide, dentro daquele processo, qual cláusula pesa mais, qual lançamento não bate, qual e-mail saiu do tom.
O que ela não decide é se aquele processo merece existir do jeito que existe. Isso é seu trabalho, não dela. Processo bem desenhado, ela entrega resultado que vale. Processo bagunçado, ela entrega a mesma bagunça, só mais rápido e mais convincente.
Pra fazer esse trabalho bem, ela precisa do que já chamei de combustível na primeira edição desta coluna: contexto. Ela aprende com o que você entrega pra ela. Quando você ajusta o processo, conecta as pontas, coloca quem vive aquele trabalho todo dia dentro do desenho, você está dando contexto de verdade. E aí, sim, ela entrega uma solução aderente ao seu negócio. Não uma resposta genérica de quem nunca pisou na sua empresa.
E quem fazia esse cruzamento manual não some. Passa a validar o que a IA entrega, pegar a exceção que não está na regra, trazer o contexto que não tá em planilha nenhuma. Sai do trabalho repetitivo, entra no trabalho que exige julgamento. Se você cortar essa pessoa em vez de realocar o julgamento dela, você perdeu justamente a peça que faz a IA funcionar direito.
E tem uma redução de custo real por trás disso, que merece ser dita sem rodeio: você passa a fazer mais, no mesmo tempo, ou a mesma coisa, em muito menos tempo.
Isso alimenta um mito que circula em toda mesa de bar: o analista raso vai sumir, virou descartável. O que está sendo banalizado não é o analista. É a tarefa de cruzar volume gigante de planilha, de processar dado bruto em massa, rápido. Isso a IA faz com uma facilidade que torna irrelevante levar um mês pra entregar o que agora sai em horas.
O diferencial não desapareceu. Mudou de lugar. É o conhecimento de quem sabia o que procurar naquela massa de dado, aplicado através da ferramenta. O resultado que levava dias pra ficar pronto começa a sair em horas, porque a inteligência de quem analisa entra na ferramenta, não fica de fora dela.
O que você não pode deixar de fazer é organizar essa história. Organizar pra que cada setor entenda o próprio papel dentro do todo, não só o próprio pedacinho. Isso exige alguém olhando o processo de ponta a ponta. Ajustando aquele monte de planilha, aquele monte de papel, aquele monte de versão que cada área guarda do seu jeito.
E lembra sempre: shit in, shit out. Você põe lixo na entrada, com IA sai lixo anabolizado. Mais rápido, mais bonito, mesmo lixo.
A palavra de ordem aqui é processo.
Se alguém te oferecer proposta de IA cheia de termo técnico e número bonito, sem perguntar antes como o seu processo funciona hoje, corre. Isso não é solução. É venda de gato.
o cliente com três versões diferentes
Pega o cliente que entra na sua empresa hoje. Pro time de vendas, ele é um nome e um valor fechado no funil. Pro financeiro, é um CNPJ com pendência de pagamento. Pro atendimento, é um número de protocolo aberto há quinze dias. Três áreas, três versões da mesma pessoa, nenhuma conversando com a outra.
Põe IA em cima disso e ela não vira mágica unificadora. Ela vira mais uma área operando cega pro resto, só que mais rápido. O cliente continua sendo três pessoas diferentes dentro da sua própria empresa. Você só acelerou a fragmentação.
a planilha que vive na cabeça de quem faz
Mesma lógica no onboarding de funcionário novo. Cada gestor tem a própria planilha, com a própria sequência de passos, guardada no próprio computador, do jeito que aprendeu a fazer há anos. Ninguém documentou o processo formalmente porque o processo nunca existiu fora da cabeça de quem executa.
IA não automatiza isso. Não porque a ferramenta seja fraca. Porque não existe processo ali pra automatizar. Existe hábito disperso, repetido de gestor em gestor, cada um com a própria versão da verdade.
a infraestrutura de dados que ninguém quer construir
Os números mostram o tamanho da rachadura.
Levantamento da Gartner com 248 líderes de gestão de dado encontrou que 63% das empresas não têm, ou não sabem se têm, as práticas certas de gestão de dado pra sustentar IA. A mesma pesquisa, publicada em fevereiro de 2025, projeta que, até o fim de 2026, 60% dos projetos de IA sem dado pronto serão abandonados.
Não é falha de modelo. Não é o ChatGPT, o Claude ou o Gemini sendo burro. É processo que não foi ajustado e dado que não foi conectado, antes de qualquer ferramenta entrar em cena.
onde isso encontra o agente
Na edição quatro desta coluna, tratamos do agente de IA e do tanto de gato vendido como lebre nesse mercado. O argumento de lá foi direto: agente funciona quando o processo já existe, já roda bem com humano, o erro é mapeável e a métrica é clara. Tira qualquer um desses três pilares, e o agente vira despesa.
Processo ajustado e dado conectado são exatamente o que sustenta esses três pilares antes de qualquer agente entrar em cena. Sem isso, “agente” e “setor de IA” são a mesma promessa vazia, só embaixo de etiqueta diferente.
a pergunta não é se você investe. é em que fase a ia entra
Investimento em IA, consultoria, ferramenta, qualquer coisa, isso já está decidido pra quem está nesta coluna. A pergunta que separa quem ganha de quem perde dinheiro nisso é outra: em que fase do processo a IA entra.
No primeiro momento, ela não entra pra acelerar nada. Entra pra ajudar a ajustar e documentar o processo. Você senta com ela, descreve o processo do jeito torto que ele realmente acontece hoje, com exceção, com “depende do cliente”, com os buracos que você já sabe que existem. Ela pergunta o que você não pensaria em perguntar. Muita melhoria de processo nasce exatamente desse exercício, antes de qualquer ferramenta de produção entrar em cena.
No segundo momento, só depois do processo ajustado, a IA entra pra valer e acelera de verdade. Não adianta Ferrari numa rua de terra cheia de buraco. A Ferrari não vira útil só porque é rápida. Ela precisa de asfalto pra mostrar pra que serve.
perguntas que ficam
Preciso comprar um sistema novo pra resolver isso?
Na maioria dos casos, não. O problema raramente é falta de sistema. É falta de processo ajustado e de um padrão entre os sistemas que já existem.
Isso é coisa de empresa grande, com TI dedicado?
Não. É justamente o contrário. Empresa grande tem orçamento pra empurrar o problema com gente. PME não tem essa folga, e por isso sente a fragmentação primeiro, no caixa.
Meu cliente, hoje, não fala mais em setor de IA. Fala em como o processo dele funciona de ponta a ponta. Foi a pergunta certa. Só chegou depois da bronca.
Carro novo sem estrada fica na garagem. Ou pior, sai e quebra no primeiro buraco. Antes de comprar o carro, olha pra rua.
O seu processo está ajustado, ou cada um na sua empresa faz do jeito que quer? Se a resposta for “depende de quem você perguntar”, você já sabe por onde essa semana começa.